quinta-feira, 16 de abril de 2026

19


Busco o rastro do que não se apaga no açoite dos dias,
o ferro que enferruja com a dignidade dos vencidos.

Não quero a rima lapidada, o brilho falso das vitrines,
mas a aspereza da terra que guarda o segredo das raízes.

Somos este intervalo entre o adeus e o esquecimento,
um resto de luz que ainda teima em morder a sombra.

Nas mãos, carrego o peso de cidades que nunca ergui,
e nos olhos, o reflexo de barcos que partiram sem porto.

Amo o que é lento: o crescer do líquen, o cansaço das pedras,
a paciência das águas que desenham o abismo com doçura.

Se o mundo é líquido e nos foge entre os dedos cansados,
faço da minha memória o cântaro que retém, por um instante, 
o gosto de um tempo que não soube ser breve.

Ergo o muro novamente, não para isolar o peito,
mas para ter onde encostar a alma quando o vento for demais.

O amor, enfim, é esse modo de habitar o desmoronamento
com a calma de quem sabe que o pó também é eterno.

Marcello Lopes

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