o ferro que enferruja com a dignidade dos vencidos.
Não quero a rima lapidada, o brilho falso das vitrines,
mas a aspereza da terra que guarda o segredo das raízes.
Somos este intervalo entre o adeus e o esquecimento,
um resto de luz que ainda teima em morder a sombra.
Nas mãos, carrego o peso de cidades que nunca ergui,
e nos olhos, o reflexo de barcos que partiram sem porto.
Amo o que é lento: o crescer do líquen, o cansaço das pedras,
a paciência das águas que desenham o abismo com doçura.
Se o mundo é líquido e nos foge entre os dedos cansados,
faço da minha memória o cântaro que retém, por um instante,
o gosto de um tempo que não soube ser breve.
Ergo o muro novamente, não para isolar o peito,
mas para ter onde encostar a alma quando o vento for demais.
O amor, enfim, é esse modo de habitar o desmoronamento
com a calma de quem sabe que o pó também é eterno.
Marcello Lopes

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