Entre letras
Eu te vejo entre almofadas lendo o tempo todo, enquanto chove e as cinzas de um dia se assentam pela cidade.
Eu te vejo serena e lânguida mastigando as linhas de um romance, desbotando as cores das páginas com suas linhas mestras, estabelecendo sentidos e sentimentos nas raízes literárias.
O meu desejo é encontrá-la após um longo dia com a necessidade de revelar suas leituras,
suas impressões fazendo assim que os personagens fictícios continuem cada vez mais vivos.
Eu te vejo aprofundando seus conhecimentos, resolvendo seus impasses, sorrindo entre as páginas no retiro da alma e no sossego do corpo.
Eu te vejo solta, leve, lendo poesias, recitando pela casa Borges, exalando em tua pele o gosto e o som dos poetas.
Teus pés que me levam à loucura hoje me mostram o caminho dos textos que compõem a tua formação, e entre as estantes reencontrei tua paixão.
Eu convivo com poetas, escritores e mestres, hoje guardo na memória e nos rascunhos dos cadernos, cada frase tua cada nobre prosa.
Vejo-te pelos espaços onde os livros habitam, na varanda lemos Goethe e Mallarmé cercados de entardeceres e flores, e em vez da simples exaltação somos inspirados por um sentido
mais pleno de paixão.
Eu vejo teu olhar que apreende essa metrópole e sei que tua imaginação constrói uma civilização atemporal, baseada na literatura, poesia e arte, por isso nada peço senão a eternidade ao teu lado.
Lendo um livro contemplamos e caminhamos nos pátios, traduzimos os subúrbios
e assim assumimos o contorno da cidade, a literatura tem sobre nós um efeito avassalador.
Eu te vejo elaborando um texto, uma carta com palavras que eu conheço e que me são caras, traduzindo o amor, a mágoa e dor.
Nossa vida está contida em um mito dilatado, conhecido por uma única palavra, livro.
Minha cidade natal é aquela que leio, os anseios que tenho não são meus, contigo corto sentimentalismos e pulo interrogações, reescrevo excessos.
Quando te vejo escrevendo significa que estou descobrindo, resignando ou corrigindo,
examinando a condição de ser humano afetivamente literário.
Eu tenho meus fantasmas, são parte do meu roteiro, suscitados pelos romances fracassados
e ficções exasperadas.
Mas é teu corpo, com paixão e veemência que responde minhas dúvidas que nenhum ensaio ou aforismo consegue.
Eu te vejo refletindo sobre suas experiências literárias, provocadas pelos anseios e pela ingênua realidade, vejo o essencial em teu ser, compor tua vida é obra engenhosa de um fidalgo.
Marcello Lopes

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